Como não desistir da transição capilar

Pode parecer fútil para alguns, mas só quem passa por ela sabe: a transição capilar é um momento bem difícil na vida de qualquer mulher.

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(Meu cabelo durante a transição: cachos se mesclando à alisamentos e formando uma massa desforme que eu odiava).

Você não precisa ser a mulher mais vaidosa do mundo para concordar com isso, eu não sou. Mas os cabelos são uma parte bem importante da vida feminina. O porquê exatamente eu não sei e acredito que só a psicanálise explica. Fato é que desde que a gente se entende por “mocinha” fica às voltas com a curiosidade aguçada por tratamentos capilares iguaizinhos aos que a nossa mãe faz e começa a criar a nossa percepção de como é o “cabelo perfeito”.

Acontece que quando eu era a mocinha em questão o cabelo perfeito era o cabelo liso. Isso, atrelado à criação da chapinha e dos alisamentos com formol fez grande parte da minha geração dependente dos tratamentos capilares que alisavam os cabelos e mandavam embora os cachos.

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(Um pouco antes da transição e com o cabelo lisinho, mas sem vida, balanço, movimento, nada.)

Confesso que não foi nenhuma luz interna que me fez querer voltar a ter o cabelo natural. Pelo contrário, eu fugia da raiz natural crescendo em meio à progressiva como o diabo foge da cruz. Acordava 1 hora antes do horário de ir pra faculdade pra arrumar o cabelo com chapinha e fazia isso crente de que seria assim pro resto da vida, porque afinal, cabelo bonito era cabelo liso. Isso até que em 2012 meu cabelo começou a cair loucamente e eu simplesmente tive que parar com os alisamentos.

Transição Capilar

Eu nem conhecia esse nome ainda, mas sabia que teria de ficar um tempo com o cabelo “meio a meio” meio liso e meio enrolado. Fui lá e cortei o cabelo o mais curto que podia, que no meu caso era no ombro. Eu não quis fazer BC, então tive que conviver com o cabelo com duas texturas e aí veio o problema: me sentia horrível e sair na rua era um martírio, mas em meio a crises eu pensava “preciso fazer isso” e tentava seguir, afinal era temporário (mesmo que eu não soubesse quanto tempo seria exatamente).

Assim se passaram alguns meses e meu cabelo não estava nem de perto como ele seria realmente, mas fazendo cortes de quando em quando e deixando no mesmo comprimento com que eu me sentia confortável fui me acostumando e aprendendo a cuidar.

Mas essa história não é exatamente sobre o “e vivemos felizes para sempre eu e meus cabelos depois da transição”.

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(Acostumando com a transição e com o cabelo nem liso nem cacheado.)

Vontade de desistir

O que me trouxe a escrever esse texto foi a necessidade que eu senti em falar de uma coisa que as vezes não parece sobre as meninas que fazem transição e tem sucesso nessa empreitada, chegando a ter os cabelos bem longos: algumas vezes, durante as suas transições capilares, muitas delas pensaram em desistir.

Aconteceu comigo, mesmo quando eu já estava me acostumando com o cabelo com mais de uma textura. Mesmo quando o meu cabelo começou a ficar enrolado de verdade. Mesmo com a possibilidade de os cabelos caírem por causa de um alisamento: eu quis desistir.

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(Beijinho no ombro pro alisamento por fora, aquela leve vontade de alisar por dentro)

Porque apesar de tudo que a gente vê como sendo legal em ter o cabelo natural e todo o discurso de empoderamento, com o qual eu concordo absolutamente, é difícil se acostumar com um mundo novo.

E o mundo dos cabelos ondulados, cacheados e crespos é completamente diferente do mundo “normal” – o mundo dos cabelos lisos. Todos os cuidados que aprendemos quando começamos a cuidar do cabelo natural são totalmente diferentes do que aprendemos pela vida inteira e aí o caminho mais fácil, que é aquele que a gente conheceu a vida toda, realmente nos chama por mais de uma vez.

Às vezes uma blogueira ou uma amiga nos serve de inspiração: ela conseguiu passar por esse processo, eu também posso conseguir. Mas do mesmo jeito que a internet nos aproxima, ela pode nos afastar e acho que esse pode ser um desses casos – a gente vê todo o processo na nossa frente, mas não o vê em profundidade.

Porque a gente vê só as fotos do antes e depois daquela transição capilar e tem a sensação de que aquele processo foi fácil e indolor como nas fotos, daí fica se sentindo um E.T. “se ela estava tão decidida a não mais alisar os cabelos, porque eu só penso nisso?”.

Se você está se perguntando isso vou te contar um segredo: talvez essa moça que você vê no antes e depois da transição capilar não estivesse tão segura de si assim nesse processo, você também não precisa estar.

É normal querer desistir de muitas coisas na vida, até das que parecem as mais certas do mundo. Um emprego, um curso, um relacionamento, ter o seu cabelo natural. É normal ter certeza de uma coisa hoje e amanhã duvidar. Todo mundo sente isso. E em tempos de redes sociais em que todo mundo é feliz, bonito e decidido 24 horas por dia a gente se esquece que todos temos medos e inseguranças.

Lembrar que a transição capilar não é um período fácil para nenhuma mulher nos dá força, pois sabemos que não estamos sozinhas. E o mais importante é ter consciência de que vai ser difícil e que vai demorar, mas vai passar e você vai levar todo o aprendizado do caminho.

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(Quando parei com pensamentos obsessivos sobre alisamento posso jurar que meu cabelo começou a crescer mais rápido).

Por isso, vou listar aqui algumas táticas que me fizeram continuar investindo no meu cabelo cacheado e me ensinaram como não desistir da transição capilar, apesar de tudo. Sei que tem muitas outras, mas no meu caso, principalmente por não querer fazer o BC, foram essas as que mais funcionaram:

1. Corte sempre os cabelos para tirar as partes lisas

Se você não quis fazer o BC, como eu, acaba sendo essencial cortar sempre as pontinhas lisas dos cabelos. Nada de se apegar a parte lisa por causa do comprimento. A gente se apega, eu sei, mas quando vai cortando e os cachos vão brotando percebe que era só um peso desnecessário e que, apesar de mais curtos, os cabelos ficam bem mais bonitos sem essas partes.

2. Faça penteados

Eles ajudam a sair da mesmice, esconder as partes lisas e é um desses aprendizados que você vai levar pra depois da transição. Não precisa ser nada muito elaborado, alguns acessórios que prendam seu cabelo de formas diferentes já ajudam e muito!

3. Use finalizadores “durinhos”

Até hoje os finalizadores que dão aquele efeito de “durinho” nos cachos, como os em gel, são meus prediletos. Mas na fase de transição eu os considerava essenciais. Eles definem melhor os cachos e tiram um pouco a diferença entre a parte lisa e a cacheada. Você pode dar uma amassadinha nos cabelos para que eles fiquem mais naturais quando já estiverem secos.

4. Adie os alisamentos

Posso dizer que essa é a minha principal dica. Sempre que acordava e achava que não sabia cuidar dos meus cabelos ou não gostava do aspecto deles eu falava “vou voltar a alisar esse cabelo”. Mas é igual briga: a gente adia a discussão quando tá de cabeça quente.

Assim, eu não saia marcando com a cabeleireira de alisar o cabelo. Pensava: “semana que vem eu aliso” e quando chegava na semana seguinte, se eu ainda estivesse com vontade, adiava de novo com a intenção de pensar melhor. Desse jeito o tempo foi passando, meu cabelo foi crescendo, eu fui aprendendo a cuidar dele cada dia melhor e me apaixonando pelo seu real e final formato.

5. Mantenha o pensamento positivo

Agora não parece, mas vai passar. E quando passar você vai perceber o quanto valeu a pena. Por isso, pensamento positivo sempre. E se cair na vontade de alisar não se esqueça que ela também passa. Quando o seu cabelo estiver totalmente natural você até vai esquecer que isso sequer passava pela sua cabeça. A única coisa que você vai pensar ao olhar no espelho é: nunca mais vou alisar esse cabelo!

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(Adaptada ao já não tão novo, mas sempre apaixonante mundo do cabelo natural).

Ah, tamo junta. Escreve pra mim também aqui nos comentários! Quero saber se você já passou por isso e como vai sua transição capilar.

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